Sabe, convivo com uma sentimento há um tempo já. Talvez, contando desde o início, há uns dois anos. Quando eu conto para alguém, mesmo que superficialmente, ouço um "que frescura", "isso é coisa de quem não tem com o que se preocupar", "ah, Flávia, vai arrumar o que fazer". E dói. Dói sabe por quê? Dói porque ninguém sabe o que é ter medo de andar na própria casa. Ninguém sabe o que se passa dentro de mim e o quão incontrolável esse sentimento é. Sair depois de escurecer de casa? Talvez. A pé? Nunca. "Flávia, pega nãoseioque lá no quarto pra mim?". De dia? Claro. De noite? Hahah, vai tu. Mas, não é preguiça, não é frescura, não vontade própria. É medo. Um medo dominador, que insiste em me controlar e não querer deixar eu fazer as coisas básicas da rotina. Repito, ninguém sabe o que é sentir isso. Sentir-se impotente, imbecil, completamente inútil. Eu pareço uma criança. Na verdade, nem mais isso eu pareço, porque nem as crianças tem medo disso. Eu não entendo. Só o que eu sei, é que tem sempre alguém me olhando ou pronto para me fazer mal.
Eu sou egoísta. Sempre acho que tem alguém pronto para me fazer alguma coisa, para me matar, seqüestrar, ou qualquer outra coisa. E ninguém sabe como eu gostaria de me livrar disso. Com a terapia tinha diminuído muito, eu tava progredindo demais. Mas quem disse que eu tenho dinheiro para fazer terapia uma vez por semana? E ainda dizem que o dinheiro não compra a felicidade. Não compra de quem não tem medo de transitar em sua própria casa de noite. Porque para mim compraria, sim.
Eu olho para o escuro, eu ouço um barulho... Qualquer coisa assim, minhas pernas vacilam, meus olhos até enchem de lágrimas. Calma, Flávia, dessa vez foi uma madeira estalando ou um simples fruto da tua imaginação. O problema é que eu só tenho noção disso depois que o desespero já chegou. Porque o certo, de uma pessoa que não tem medo, seria "ah, deve ser uma madeira estalando". E caso não fosse a pessoa ficaria preocupada. Eu não. Para mim é 8319173247346 vezes mais fácil ser um ladrão, um maníaco, um psicopata, do que uma simples madeira do salão. E, poxa, é complicado tu te sentir presa, refém de ti mesma. Um medo te controlando, te dizendo o que tu não deve fazer, mesmo que inconscientemente.
Às vezes eu canso, sabe. Canso mesmo de ser assim. Canso porque me limita, porque tem coisas que eu, simplesmente, não consigo fazer, não tenho coragem. Canso porque tenho que ouvir de todo mundo que é frescura. Canso porque até uma criança de 5 anos é mais corajosa do que eu. Mas eu não vou desistir, aliás, eu não posso desistir de mim mesma. Afinal, eu estou crescendo e de uma vez por todas, eu vou ter que me livrar disso. Por isso que escrevo também. Porque liberta. Porque parece que quando eu escrevo ou falo sobre isso um pedaço do medo parece que sai junto. E fica só um enorme bolo que eu vou ter que destruir arrancando pedaço por pedaço.
presa dentro dessa dor, sem ninguém pra te ajudar
presa nesse corredor, desistindo de tentar
presa dentro dessa dor, não há como te salvar
eu vou onde você for
europa - fresno
(música que me arrepia, demais)
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